| Íntegra
da Carta de Florianópolis
Florianópolis (SC), 29/09/2005 - Segue
a íntegra da Carta de Florianópolis,
lida hoje pelo jurista Fábio Konder Comparato,
medalha Ruy Barbosa, durante a cerimônia
de encerramento da XIX Conferência Nacional
dos Advogados.
"Há
três anos, em Salvador, por ocasião
da XVIII Conferência Nacional, os advogados
brasileiros manifestaram publicamente sua esperança
na regeneração política do
País, com a eliminação das
crônicas desigualdades sociais e dos focos
de corrupção que ameaçavam
a credibilidade das instituições
públicas.
Hoje,
o sentimento geral é de completa frustração.
Reunidos em Florianópolis (SC), na XIX
Conferência Nacional dos Advogados, sob
o tema “República, Poder e Cidadania”,
os advogados brasileiros, interpretando os anseios
da Nação, tornam pública
a sua indignação com o descalabro
administrativo, a corrupção, a impunidade
e a ausência de políticas públicas
que atendam aos objetivos fundamentais da República,
declarados na Constituição Federal:
construir uma sociedade livre, justa e solidária;
garantir o desenvolvimento nacional; erradicar
a pobreza e a marginalização, e
reduzir as desigualdades sociais e regionais;
promover o bem de todos, sem preconceitos de qualquer
espécie.
O
enfraquecimento dos poderes públicos prejudica
o desempenho de sua tarefa maior, que é
a defesa da soberania nacional, no que tange,
notadamente, aos recursos energéticos,
à biodiversidade e à floresta amazônica.
Cumprindo
seu dever estatutário, os advogados exigem
a exemplar punição dos envolvidos
em atos de corrupção e malversação
de dinheiro público, observado o devido
processo legal, impedindo-se que a renúncia
ao mandato eletivo faça cessar o processo
punitivo.
Não
podem os advogados aceitar que parte expressiva
dos recursos públicos seja destinada a
atender à ganância do sistema financeiro,
enquanto os direitos fundamentais da pessoa humana,
no que se refere ao acesso ao trabalho, à
educação, à saúde,
à moradia, à terra, à segurança
e à Justiça, continuam sistematicamente
negados.
No
tocante ao funcionamento do aparelho judiciário,
é imperativo denunciar as constantes violações
aos princípios da ampla defesa e da presunção
de inocência, com o desrespeito, mediante
ações sensacionalistas, à
inviolabilidade profissional do advogado. Violar
a advocacia é atentar contra a liberdade,
e sem liberdade não há Estado democrático
de Direito.
A
tão esperada Reforma do Judiciário,
ainda que tenha apresentado alguns avanços,
como a criação do Conselho Nacional
de Justiça, cuja autonomia deve ser urgentemente
assegurada, ficou muito aquém da expectativa
da sociedade. O Judiciário continua distanciado
da realidade social.
A
União, por sua vez, ameaça o equilíbrio
federativo, na medida em que não promove
a justa repartição da receita tributária
entre Estados e Municípios. E o Executivo
usurpa a função legislativa do Congresso
Nacional, com a excessiva edição
de Medidas Provisórias.
Entendem
os advogados que o simples aperfeiçoamento
do sistema eleitoral é insuficiente para
solucionar os graves problemas nacionais. Urge
fazer atuar, de modo desembaraçado, os
instrumentos de democracia direta consagrados
na Constituição – o referendo,
o plebiscito e a iniciativa popular –, bem
como introduzir novos, tais como a revogação
popular de mandatos eletivos e a participação
popular na elaboração e execução
de orçamentos, em todos os níveis
da organização federativa.
República,
Poder e Cidadania, mais do que um tema, representa,
na verdade, a confiança no povo brasileiro,
única fonte legítima de todos os
Poderes".
Fonte:
OAB Nacional
|