"O tema desta XIX Conferência Nacional
dos Advogados – República, Poder
e Cidadania – reúne e sintetiza os
elementos básicos da crise político-institucional
brasileira.
Uma crise que, a rigor, remonta aos primórdios
de nossa formação nacional –
e tem raízes numa distorção
que até hoje nos desafia: somos uma nação
cuja elite dirigente a governa de costas para
o povo.
Uma nação sem povo.
A Constituição Federal de 1988
declara, solenemente, que um dos objetivos fundamentais
da nossa República consiste em “erradicar
a pobreza e a marginalização e reduzir
as desigualdades sociais e regionais” (art.
3º, inciso III). Mas como é possível
fazê-lo se o próprio povo, no seu
conjunto, permanece à margem da vida política?
A proclamação da República
não rompeu, entre nós, os fundamentos
discricionários da sociedade monárquica,
que, por sua vez, preservou a estrutura social
herdada da Colônia.
A ética republicana brasileira não
se impôs às forças reacionárias
que dela se apoderaram desde o início –
e ainda hoje, como estamos vendo, têm presença
hegemônica na gestão de nosso Estado.
A presente crise política, que é
sobretudo moral, expõe as entranhas desse
sistema, submetido ao domínio promíscuo
de partidos políticos - partidos que, no
dizer de um dos mais eminentes pensadores brasileiros
do século passado, o jurista e sociólogo
Oliveira Viana, não passam de "clãs
organizados para a exploração em
comum das vantagens do poder”. Oliveira
Viana referia-se aos partidos do tempo da monarquia,
mas alguém, em sã consciência,
divergiria desse diagnóstico em relação
aos partidos políticos dos dias de hoje?
Clãs organizados para, vencida a batalha
eleitoral – uma batalha movida a dinheiro
-, exercer o botim do poder!
E o que é mais triste: não obstante
o impacto dos escândalos que hoje mobilizam
nada menos que três CPIs no Congresso Nacional,
as próximas eleições gerais
serão regidas pelas mesmas leis que produziram
o cenário
político que aí está.
O Congresso Nacional não fez a prometida
reforma eleitoral e corremos o risco, no próximo
ano, de assistir ao mesmo espetáculo de
extravagância econômica e indigência
cívica para a renovação de
nossos quadros políticos dirigentes.
O próximo Presidente da República,
os próximos governadores, as próximas
assembléias legislativas e o próximo
Congresso Nacional serão eleitos nos mesmos
moldes dos atuais.
Veremos, mais uma vez, profissionais do marketing
político transformando candidatos em produtos
de consumo – como sabonetes ou refrigerantes
- e os impingindo aos eleitores desavisados (infelizmente,
a maioria), a partir de truques de manipulação
de imagem e de estratagemas verbais.
Os showmícios milionários serão,
novamente, o fator básico de agregação
de multidões – e não idéias,
propostas ou compromissos. Elegeremos partidos
sem que haja fidelidade partidária, o que,
mais uma vez, propiciará o ambiente para
a construção artificial e espúria
de maiorias, como as que resultaram do expediente
funesto do Mensalão.
Nada menos republicano. Nada menos democrático.
Nada menos ético.
Todos, governo e oposição, diante
do impacto do escândalo político
- e de suas evidentes raízes - falaram
da urgente necessidade de promover a reforma eleitoral.
Falaram, falaram - mas não a fizeram.
O Senado chegou a formular um pequeno esboço,
pontual e insuficiente – mas nem esse esboço
chegou a ser considerado.
A esperança de que a crise servisse ao
menos para provocar as mudanças necessárias
à regeneração política
do país frustrou-se.
E aí voltamos ao ponto inicial: ao fosso
entre Estado e sociedade - à nação
sem povo. Ao Brasil de ontem e de hoje.
Ao longo de nossa história, acostumamo-nos
a ser mais súditos que cidadãos.
Alceu Amoroso Lima dizia que uma das razões
dessa distorção é que o Brasil,
antes de se organizar como sociedade, se organizou
como Estado.
O Estado, entre nós, precedeu a Nação.
O resultado é que temos uma República
que não faz jus ao seu sentido etimológico.
República significa coisa pública
– e a nossa não é, não
tem sido, algo efetivamente público. O
sistema espúrio de financiamento de campanhas
eleitorais, a cujos efeitos assistimos com o presente
escândalo político, distorce a representação
e faz do Estado reserva de domínio dos
grupos econômicos privados que financiam
candidatos e partidos. E o resultado é
a esquizofrenia de um país de duas faces.
Em artigo publicado em 1861, no Diário
do Rio de Janeiro, Machado de Assis constatava
haver dois Brasis – o real e o oficial.
E sobre cada qual fazia esta análise, que,
144 anos depois, mantém-se tristemente
atual:
“O país real, esse é bom,
revela os melhores instintos; mas o país
oficial, esse é caricato e burlesco. (...)
No que respeita à política, nada
temos a invejar ao reino de Lilipute.”
De lá para cá, podemos dizer que
houve efetiva evolução em nossa
política? Deixou ela de ser povoada pelos
anões morais que Machado comparou aos que
Gulliver encontrou em Lilipute?
Outro pensador social brasileiro da primeira
metade do século XX, o advogado Hermes
Lima, fundador do Partido Socialista, constatava
que nem a política monárquica, nem
a republicana jamais tiveram entre nós
o sentido de uma atuação verdadeiramente
baseada no apoio direto da massa.
Nem sob um regime, nem sob o outro, dizia ele,
tivemos nenhum partido que fosse, de fato, instrumento
político do povo, vivendo do contato e
do apoio direto do povo.
Daí a imensa esperança –
a extraordinária euforia - que todos os
que desejamos a superação desse
quadro de iniqüidades tivemos com a eleição
do atual governo, do Presidente Lula, lastreado
por um partido político, o PT, que parecia
romper o panorama quase fatalista descrito por
Oliveira Viana e Hermes Lima.
Tratava-se afinal de um governo carregado de
forte simbolismo, que parecia promover, com atraso
de mais de um século, o encontro da República
brasileira com sua única e insubstituível
fonte de poder – o povo.
A eleição de um ex-operário,
forjado nas lutas sindicais, tendo a ética
e a justiça social como lema e compromisso,
promoveu uma rara comunhão eleitoral na
história do país.
Lula uniu elite e povo numa mesma esperança,
num mesmo sonho, de um Brasil melhor e mais justo.
Mas, tal qual seus antecessores, sucumbiu aos
vícios da velha política brasileira,
vícios que nos têm impedido de realizar
a vocação de fraternidade e grandeza
antevista pelos fundadores da Pátria.
Antevista por um José Bonifácio
de Andrada e Silva, que há quase dois séculos,
sonhou um Brasil sem escravos e sem tiranos, abortado
no berço esplêndido de seu nascimento
pelas forças reacionárias de sua
elite dirigente.
E aí, meus caros amigos, advogadas e advogados,
cidadãos e cidadãs, permitam-me
a indignação: pior que roubar nossos
reais, nossos suados reais, é roubar nossos
sonhos!
A reconstrução do sonho é
bem mais penosa e dramática. É tarefa
para gerações! E foi este sonho
republicano, de um país mais justo e menos
desigual, acalentado por gerações,
construído à custa de sangue, suor
e lágrimas, que nos foi suprimido.
Suprimido pelo tráfego iníquo e
descarado das malas de dinheiro, pelas operações
de caixa dois, pela formação do
exército parlamentar de mercenários,
sustentados pelas 30 moedas de prata do Mensalão!
Quando, hoje, alguns parlamentares propõem
abrandar as penas dos colegas envolvidos em atos
de corrupção explícita, sentimos
que a dualidade mencionada por Machado de Assis
persiste.
O Brasil liliputiano continua vivo - e no comando!
Há também, é claro, o Brasil
sadio, ético, criativo, de que o próprio
Machado de Assis, oriundo das camadas populares,
é exemplo. Mas esse Brasil, embora presente
no Parlamento e em todas as instituições
políticas, ainda não chegou efetivamente
ao poder.
O presidente Lula foi eleito com a missão
de fazê-lo chegar, mas não conseguiu.
Em curto espaço de tempo, capitulou aos
usos e costumes do velho Brasil, aquele que, como
fênix, renasce sempre das próprias
cinzas. Basta acompanhar nossa trajetória
republicana.
Em 1930, fez-se uma revolução para
pôr fim à “República
dos Carcomidos”. Mas ei-la, rapidamente,
de volta, a assumir o comando da própria
revolução e a levá-la sete
anos depois ao golpe ditatorial do Estado Novo.
A redemocratização, a partir de
1945, foi turbulenta e durou pouco: passou pelo
suicídio de Vargas, por duas tentativas
de golpe contra JK, pela renúncia de Jânio
Quadros, pela queda de Goulart, desaguando numa
ditadura militar que duraria duas décadas,
inaugurando nova era de velhos e maus costumes
na cena brasileira.
O pretexto do golpe militar foi o combate à
corrupção e à subversão,
mas ele próprio acabaria tornando-se agente
e promotor de ambas. A redemocratização,
a partir de 1985, inaugurou a era das CPIs, na
qual ainda estamos. E esse período já
pôde ser acompanhado desta Presidência
da OAB pelo ilustre advogado Márcio Thomaz
Bastos, que hoje nos honra com sua presença,
representando o Presidente da República.
Coube-lhe presidir brilhantemente o Conselho
Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, de abril
de 1987 a abril de 1989, período rico de
nossa história contemporânea. Período
em que tivemos uma Constituinte, responsável
pela constituição em vigor, e em
que a sociedade civil passou a investigar mais
de perto os governantes.
Cada governo, desde então, passa a conviver
com um ambiente de denúncias, reais e efetivas,
que geram contra-ofensivas de operações-abafa
e introduzem novos termos e metáforas no
universo semântico da política nacional,
como “pizza” e impeachment.
Tivemos um presidente deposto, Fernando Collor
de Mello. E desde então a instabilidade
passou a fazer parte do cenário político.
A expressão “assar uma pizza”
tornou-se recorrente. Significa selar acordo de
impunidade entre os agentes da política.
Negocia-se solução de cúpula
em que acusadores e acusados barganham interesses
à revelia da opinião pública.
A indignação da sociedade em face
dos fatos serve apenas de munição
para pressionar o lado acusado e levá-lo
a pagar um alto preço político pela
impunidade. É o que acontece presentemente.
Tão indecente quanto a roubalheira é
a tentativa de minimizá-la, manipulá-la
politicamente. A idéia de manter o Presidente
da República “sangrando” para
que chegue fraco às eleições
é inqualificável.
Se o Presidente cometeu alguma irregularidade,
deve responder por seus atos, nos termos da lei.
Se é inocente, deve ser preservado. O inaceitável
é que seja condenado e, simultaneamente,
preservado em face de interesses eleitoreiros.
Isso é ainda mais grave que a pizza. É,
como
dizia Ulysses Guimarães, fazer piquenique
na boca do vulcão.
A sociedade está atenta e já não
tolera essa encenação. Está
cada vez mais cética quanto às instituições
políticas –e isso é trágico
para a consolidação do Estado democrático
de Direito.
Otávio Mangabeira comparava a democracia
a uma “plantinha tenra”, que precisa
ser regada e cuidada com carinho. E o que vemos
hoje é essa plantinha ser pisoteada sem
qualquer cerimônia pelos agentes políticos.
O Presidente Lula tem responsabilidade no desconforto
moral em que está. Até hoje não
proferiu uma palavra categórica que convença
a sociedade de sua inocência.
Diz-se traído, mas não revela por
quem ou por quê. Traição ao
Presidente da República não é
questão de foro privado – é
questão institucional. Quem trai o supremo
mandatário do País trai o País.
E o mínimo que se pode exigir é
que a sociedade saiba os nomes dos que a estão
traindo.
Este é o grito que, neste mês de
Setembro, que marca a celebração
do 183º (centésimo- octogésimo-terceiro)
ano de nossa Independência, nos impede de
ouvir e celebrar condignamente aquele outro grito
que nossos ancestrais nos legaram - o Grito do
Ypiranga.
O grito que prevalece e se sobrepõe é
o da indignação da sociedade brasileira
contra a corrupção e a impunidade,
mazelas que se somam e realimentam há tantos
anos em nossa paisagem político-institucional.
Poderá o Brasil celebrar sua efetiva Independência
enquanto se mantiver refém de si mesmo?
Hoje, o principal inimigo nacional está
dentro do próprio país.
É a banda podre de suas elites dirigentes,
que, como já disse, continua a ter presença
hegemônica no jogo do Poder, cujas carências
básicas são as de sempre: ética
e cidadania.
Sem elas, o exercício do poder não
se legitima. É sempre arbitrário,
espúrio. Sem ela, nossa República
permanece fictícia, a exigir reproclamação
- refundação.
A Ordem dos Advogados do Brasil, como entidade
representativa dos anseios da sociedade civil
brasileira – e desde sua fundação,
há 75 anos, estatutariamente comprometida
com a defesa do Estado democrático de direito
e as instituições republicanas -,
não pode ficar indiferente a este quadro.
Não temos partido político, nem
sectarismos ideológicos. Mas temos compromisso
claro com a lei e a cidadania. A Constituição
Federal do Brasil, de 1988, estabelece, em seu
artigo 133, que “o advogado é indispensável
à administração da justiça,
sendo inviolável por seus atos e manifestações
no exercício da profissão, nos limites
da lei”.
Ao alçar o advogado ao nível de
“preceito constitucional”, o constituinte
brasileiro definiu-o para além de sua atividade
estritamente privada, qualificando-o como prestador
de serviço de interesse coletivo e conferindo
a seus atos múnus público –
quer queiram, quer não!
Não há outra profissão com
status equivalente. Para alguns, trata-se de privilégio,
mas, na verdade, trata-se de compromisso com a
coletividade, verdadeira promissória social,
que excede os deveres corporativos e nos torna
homens públicos, ainda que sem mandato
político ou cargo funcional no Estado.
Muitos confundem a defesa das prerrogativas com
privilégios
corporativos, quando, na verdade, trata-se da
defesa da cidadania. É o direito do cidadão
que está em pauta, quando se exige, em
nome da liberdade de defesa e do sigilo profissional,
que se respeite a inviolabilidade do local de
trabalho do advogado, de seus arquivos e dados,
de sua correspondência e de suas comunicações,
inclusive telefônicas e afins.
São direitos que se destinam aos jurisdicionados
e aos cidadãos, para que tenham uma Justiça
(vale a redundância) efetivamente justa.
Por isso, consideramos os ataques às prerrogativas
da advocacia um sinal perigoso, que pode resultar
no enfraquecimento da profissão, na redução
de cidadania.
Se o advogado não pode atuar com independência
e liberdade, o que está em risco é
a democracia - e com ela a cidadania.
Daí a campanha nacional permanente da
OAB em defesa dessas
prerrogativas, ameaçadas ciclicamente de
supressão - hoje, a pretexto de combate
à criminalidade; ontem, na ditadura, a
pretexto de defesa da segurança nacional,
que acobertava tortura a presos políticos
e outras violações a direitos humanos
e constitucionais.
Advogadas, advogados, cidadãs e cidadãos
A OAB não é governo, nem oposição.
É uma instituição republicana,
a serviço da cidadania, que se envolve
com a conjuntura política, mas não
se contamina com o jogo partidário.
Cultivamos a neutralidade, mas não a indiferença.
Daí nosso empenho e determinação
em agir diante da crise política que aí
está – e que nos remete aos fundamentos
de uma doutrina que Ruy Barbosa resumiu em magistral
conferência proferida em 1916, na Faculdade
de Direito de Buenos Aires, e que denominou “O
dever dos neutros”.
Resumo aqui a parte mais substantiva dela, que
se aplica com perfeição ao que ocorre
hoje em nosso meio político – e nos
serve de balizamento. Disse Ruy Barbosa naquela
oportunidade:
“Entre os que destroem a lei e os que a
observam não há neutralidade admissível.
Neutralidade não quer dizer impassibilidade;
quer dizer imparcialidade – e não
há imparcialidade entre o direito e a injustiça.
Quando entre ela e ele existem normas escritas
que as discriminam, pugnar pela observância
dessas normas não é quebrar a neutralidade;
é praticá-la. Desde que a violência
pisa aos pés arrogantemente o código
escrito, cruzar os braços é servi-la.
Os tribunais, a opinião pública,
a consciência não são neutros
entre a lei e o crime.”
Daí porque é impossível
e inaceitável cruzar os braços diante
da atual crise política. Daí porque
decidimos ter, diante dela, atitude propositiva
– e não apenas crítica. Daí
o tema desta Conferência – República,
Poder e Cidadania -, precedida de campanha nacional
deflagrada ano passado, por ocasião da
celebração da data de Proclamação
da República, e que se chamou significativamente
“Campanha Nacional em Defesa da República
e da Democracia”.
Naquela oportunidade, sem que nem de longe suspeitássemos
dos escândalos que estavam por vir, constatávamos
a péssima performance dos agentes políticos
e contra-propúnhamos uma presença
popular mais efetiva na cena política.
Propúnhamos que fossem acionados os sempre
negligenciados mecanismos da democracia direta,
previstos no art. 14 da Constituição,
e dependentes de regulamentação
legal: o plebiscito, o referendo e a iniciativa
popular. Enviamos, na seqüência, os
projetos que regulamentam aquelas
iniciativas – e que até hoje não
foram votados.
Se antes dos escândalos já achávamos
insatisfatória a conduta da maioria dos
agentes políticos, muito mais agora, depois
das chocantes revelações que vieram
a público a partir das denúncias
do então deputado Roberto Jefferson.
Elas tiveram o efeito moral dos furacões
Rita e Katrina, que devastam cidades, oprimem
populações e, ao final, impõem
um recomeço, a reconstrução
– em novas bases, em bases mais sólidas.
E é o que aqui propomos. Como tribuna
da sociedade civil brasileira, a OAB sente-se
no dever de alertar a classe dirigente brasileira
para que busque no povo – fonte e destino
de sua missão governativa – a legitimidade
moral de seus atos. A atual crise não pode
ser apenas mais uma crise.
Precisa, tem que gerar resultados mais consistentes.
Precisamos de uma Operação Mãos
Limpas, que saneie a República brasileira
e devolva credibilidade a suas instituições.
Ghandi disse certa vez que não tinha a
ilusão de uma sociedade sem desigualdade
e injustiça. Mas que era – e é
– possível reduzi-las (a injustiça
e a desigualdade) a uma dimensão menor,
suportável.
Não temos a ilusão de que nos será
possível construir uma sociedade sem defeitos,
livre de endemias morais como a da corrupção.
Ela acompanha a caminhada humana neste Planeta
desde sua origem.