Número
de cursos de direito aumenta 300% em dez anos
Na última década, o Brasil assistiu
a uma verdadeira explosão no ensino de direito
que atingiu todas as regiões do país.
A expansão desenfreada no número de
cursos jurídicos alcançou um percentual
de nada menos do que 326,6% de 1991 a 2003. De 165
faculdades em atividade em 1991 o país passou
a contar com 704 unidades em 2003, distribuídas
em 477 instituições de ensino superior
com diferentes turnos e endereços. A estatística
é do Ministério da Educação
e Cultura (MEC), mas dados mais recentes, do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep), mostram que os cursos de direito
já somam 864 no país. No entanto,
é difícil associar esse crescimento
a um maior acesso à Justiça ou à
existência de advogados mais preparados. Basta
analisar o exemplo de São Paulo, que conta
com o maior número de cursos, mas também
é o Estado com o mais alto nível de
reprovação no Exame da Ordem: 92,84%
na última prova, o pior resultado já
alcançado e o ápice de uma série
histórica de índices cada vez piores.
Diante
do quadro alarmante, o MEC, o Conselho Nacional
de Educação (CNE) e a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) trabalham em conjunto
desde outubro do ano passado para estudar alternativas.
Um dos primeiros resultados do grupo de estudo
formado pelas entidades foi a conclusão
de um documento com propostas de mudanças
estruturais no processo de autorização
e renovação do credenciamento de
cursos jurídicos. No entanto, desde a sua
conclusão, em março, nenhum novo
passo foi dado e a OAB aguarda até agora
uma resposta do MEC.
Uma
das propostas mais importantes e também
mais polêmicas do relatório do grupo
de estudo é o conceito de "necessidade
social", uma análise que o grupo propõe
que seja feita sobre a região antes da
autorização para a abertura de uma
nova escola de direito - a começar pela
população mínima de 100 mil
habitantes para justificá-la. "Para
se criar um novo curso em uma cidade é
necessário que o lugar apresente uma infra-estrutura
mínima para acolhê-lo, o que implica
ter campo para estágio, condições
de fixação do corpo docente no lugar
e biblioteca especializada, além de ensino
médio de qualidade", avalia Paulo
Medina, presidente da Comissão de Ensino
Jurídico da OAB e representante da entidade
no grupo de trabalho criado no MEC.
A
falta de análise de critérios como
este faz com que haja um verdadeiro exagero na
oferta de cursos em algumas localidades do país.
Em 2003, 142 escolas tiveram uma relação
candidato/vaga menor do que um, ou seja, com menos
interessados do que matrículas disponíveis
nos processos seletivos. E, apesar de a média
nacional ter sido de 3,17 candidatos por assento
nos cursos de direito, 57.572 das 197.988 vagas
existentes - ou seja, 29% delas - não foram
preenchidas.
Considerando
todas as regiões do país, a proliferação
do ensino jurídico produziu uma relação
de 241.192 habitantes por curso, tendo como referência
o total da população brasileira.
A título de comparação, nos
Estados Unidos, onde o número de cursos
jurídicos é muito inferior ao brasileiro
e a população é muito maior,
são 1,489 milhão habitantes por
escola jurídica. No ano passado, os americanos
tinham à disposição 189 cursos
de direito, quando em 1990 eram 175.
O
critério de infra-estrutura e de uma população
mínima por vaga, no entanto, não
encontra unanimidade nem no grupo que produziu
o relatório final do documento, já
que cidades e populações sem acesso
à Justiça tenderiam a ficar cada
vez mais distantes de seus direitos sem a existência
de formação local para advogados
e representantes do Judiciário. "O
problema do acesso à Justiça é
de organização judiciária,
das defensorias públicas, não é
a falta de bacharéis. Não adianta
um alto número deles se forem mal formados",
critica Medina, morador de Juiz de Fora, interior
de Minas, onde já há, segundo ele,
seis cursos de graduação em direito
e um sétimo aprovado pelo CNE. Isso, numa
população total próxima de
meio milhão de pessoas, já feriria
o critério da necessidade social, pois
significaria 71,428 mil habitantes por faculdade.
No
início deste ano, a pedido da OAB, o MEC
suspendeu por 90 dias a concessão de autorizações
para o funcionamento de novos cursos de direito
no país. Mas desde maio elas foram retomadas.
Hoje, segundo o secretário de educação
superior do MEC, Nelson Maculan, há mais
de 30 processos de novos cursos jurídicos
para serem homologados pelo ministro Fernando
Haddad. Mas o secretário-adjunto Ronaldo
Teixeira diz que os novos processos já
estão levando em conta os critérios
de necessidade social e desenvolvimento regional.
No entanto, com um viés inverso ao proposto
pela OAB. "Necessidade social é a
necessidade de aquela região ser atendida,
e o fato de não ter infra-estrutura prévia
talvez seja até um motivo para a instalação
de um curso de direito e podemos autorizar este
curso antes do de qualquer outro grande centro",
afirma.
O
secretário do MEC, Nelson Maculan, afirma
que já está prevista a realização
de um seminário nacional em Brasília
para discussão de mudanças nas exigências
para os cursos de direito e de medicina, com a
publicação do relatório do
grupo de estudo formado no ministério.
Mas, para que as propostas sejam efetivamente
colocadas em prática, o MEC aguarda a aprovação
do anteprojeto da Lei Orgânica da Educação
Superior, atualmente com a sua terceira versão
ainda na Casa Civil, diz Teixeira. Segundo o secretário,
a análise já está em sua
fase final e, em breve, o texto deve ser submetido
ao Congresso Nacional. (Felipe Frisch do jornal
Valor Econômico)
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